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A DOR

Tudo o que vive neste mundo, natureza, animal, homem, sofre e, todavia o amor é a lei do universo e por amor foi que Deus formou os seres. O animal está sujeito à luta ardente pela vida. Entre as ervas do prado, as folhas e a ramaria dos bosques, nos ares, no seio das águas, por toda a parte desenrolam-se dramas ignorados. Em nossas cidades prosseguem sem cessar a hecatombe de pobres animais inofensivos, sacrificados às nossas necessidades ou entregue nos laboratórios ao suplício da vivisseção. É necessário sofrer para adquirir e conquistar. Os atos de sacrifício aumentam as radiações psíquicas. Há como que uma esteira luminosa que segue no espaço, os espíritos dos heróis e dos mártires.

Aqueles que não sofrem, mal podem compreender estas coisas, porque, neles, só a superfície do ser está arroteada, valorizada. Há falta de largueza em seus corações, de efusão em seus sentimentos; seu pensamento abrange horizontes acanhados. São necessários os infortúnios e as angústias para dar à alma seu aveludado, sua beleza moral, para despertar seu sentidos adormecidos. A vida dolorosa é um alambique onde se destilam os seres para mundos melhores. A forma, como o coração, tudo se embeleza por ter sofrido. Há, já nesta vida, um não sei quê de grave e enternecido nos rostos dos que as lágrimas sulcaram muitas vezes. Tomam uma expressão de beleza austera, uma espécie de majestade que impressiona e seduz. Michelangelo adotara como norma de proceder os preceitos seguintes: "Concentra-te e faz como o escultor faz à obra que quer aformosear. Tira o supérfluo, a clara o obscuro, difunde a luz por tudo e não largues o cinzel."

O gênio não é somente o resultado de trabalhos seculares; é também a apoteose, a coroação do sofrimento. De Homero a Dante, a Camões, a Tarso, a Milton, todos os grandes homens, como eles, têm sofrido. A dor fez-lhe vibrar a alma, inspirou-lhes a nobreza dos sentimentos, a intensidade da emoção que souberam traduzir com os acentos do gênio e os imortalizou. É na dor que mais se sobressaem os cânticos da alma. Quando ela atinge as profundezas do ser, faz de lá saírem os gritos eloqüentes, os poderosos apelos que comovem e arrastam as multidões.

Se, nas horas da provação, soubéssemos observar o trabalho interno, a ação misteriosa da dor em nós, em nosso "eu", em nossa consciência, compreenderíamos sua obra sublime de educação e aperfeiçoamento. Veríamos que ela fere sempre a corda sensível. A mão que dirige o cinzel é de um artista incomparável, que não se cansa de trabalhar, enquanto não tem arredondado, polido, desbastado as arestas do nosso caráter. Para isso voltará tantas vezes à carga quantas sejam necessárias. É sob a ação das marteladas repetidas, que forçosamente a arrogância e a personalidade excessiva hão de cair neste indivíduo; a moleza, a apatia e a indiferença desaparecerão em outro; a dureza, a cólera e o furor, num terceiro. Para todos terá processos diferentes, infinitamente variados segundo os indivíduos, mas em todos agirá com eficácia, de modo a provocar ou desenvolver a sensibilidade, a delicadeza, a bondade, a ternura. Das dilacerações e das lágrimas, alguma qualidade desconhecida que dormia silenciosa no fundo do ser ou então uma nobreza nova, adorno da alma, para sempre adquirida. Os maus precisam de numerosas operações como as árvores de muitas flores para produzirem algum fruto.

A dor física é, em geral, um aviso da natureza, que procura preservar-nos dos excessos. Sem ela, abusaríamos de nossos órgãos até o ponto de os destruirmos antes do tempo. Quando um mal perigoso se vai se insinuando em nós, que aconteceria se não sentíssemos logo os seus efeitos desagradáveis? Iria cada vez lavrando mais, invadir-nos-ia e secaria em nós a fonte da vida.

Ainda quando, persistindo em desconhecer os avisos repetidos da natureza, deixamos a doença desenvolver-se em nós, pode ela ser um benefício, se, causada por nossos abusos e vícios nos ensinar a detestá-los e a corrigir-nos deles.É necessário sofrer para nos conhecer-mos e conhecer-mos bem a vida.

Epicteto, que gostamos de citar, dizia também: "É falso dizer-se que a saúde é um bem e a doença é um mal. Usar bem a saúde é um bem, usar mal a saúde é um mal. De tudo se tira o bem, até da própria morte".

Às almas fracas, a doença ensina a paciência, a sabedoria o governo de si mesmas. Às almas fortes pode oferecer compensações de ideal, deixando ao espírito o livre vôo se suas aspirações até o ponto de esquecer os sofrimentos físicos.

A ação da dor não é menos eficaz para as coletividades do que o é para os indivíduos. Não foi graças a ela que se construíram os primeiros agrupamentos humanos? Não foi a ameaça das feras, da fome, do flagelos que obrigou o indivíduo a procurar seu semelhante para se lhe associar? Foi da vida comum, dos sofrimentos comuns, da inteligência e labor comuns, que saiu toda a civilização, com as suas artes, ciências e indústrias!

A dor física pode-se também dizer, resulta da desproporção entre nossa fraqueza corporal e a totalidade das forças que nos cercam, forças colossais e fecundas, que são outras tantas manifestações da vida universal. Apenas podemos assimilar ínfimas partes delas,mas, atuando sobre nós, elas trabalham por aumentar, por alargar incessantemente a esfera de nossa atividade e a gama de nossas sensações.O sofrimento, por sua ação química, tem sempre um resultado útil, mas esse resultado varia infinitamente segundo os indivíduos e seu estado de adiantamento. Apurando o nosso invólucro material, dá mais força ao ser interior, mais facilidade para se desapegar às coisas terrenas. Em outros, mais adiantados no seu grau de evolução, atuará o sentido moral.A dor é como uma asa dada á alma escravizada pela carne para ajuda-la a desprender-se e a elevar-se mais alto.

Léon Denis



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