Carta à Jesus "Meu querido Jesus de Nazaré, perdoe-me à intimidade do tratamento. Nesta carta, Rabi, abro o coração, confiante no teu; segundo cronologia do Evangelho, estamos há dois mil anos do teu nascimento, e a minha intenção nesta carta não é a de questionar datas ou locais, porque já aprendi que é preciso que tu nasças no meu coração.
Mas permite-me, Mestre, recordar a bucólica Belém, ou seria Nazaré? Com seu casario baixo e sua população pacata. Havia, em muitos outros lugares do mundo, palácios com salas revestidas de ouro e paredes de jade, famílias de "iniciados" nas doutrinas secretas, que poderiam receber-te em seus seios, mas preferiste o nascimento pobre, numa simbólica estribaria, cercado por pastores e animais, embora não tenha faltado um coro de anjos, cantando a glória do Pai altíssimo, que te enviou para uma missão.
A tua educação simples, a única que estava ao alcance de uma família pobre, e o teu crescimento, foram envolvidos pela magia do pensamento popular, contudo, quero encontrar-te já homem feito, emancipado.
Depois do batismo nas águas do rio Jordão, iniciaste a mais linda jornada de amor, que os homens da Terra jamais viram.
Bastava um olhar, um gesto, uma palavra, para que doenças se curassem, espíritos malfeitores abandonassem suas vítimas. Quantos se transformaram com seus discursos. Quantos tiveram curadas a sua cegueira moral, a lepra que lhes gangrenava a pele e a alma...
Dois mil anos, Rabi, Dois mil anos se passaram quando eu te ouvi pela primeira vez e no decorrer deste período tão longo, lá a trás, na esteira do tempo, em alguma esquina do passado, fui pregador, sacerdote, ministro da tua palavra, vergastando com o teu Evangelho a conduta alheia, sem aplicar a mim mesmo um só til, uma só vírgula.
Quantas lágrimas vertidas nesta caminhada! Quanto sangue! Quantas vezes ascendi a fogueira da intolerância, queimando corpos para salvar almas. Quantas criaturas encerrei em conventos, em mosteiros, para tranqüilidade dos interesses dos pais, sem perguntar se desejavam a vida monástica.
Onde coloquei todos estes ensinamentos? Onde me escondi quando te crucificaram? O que fiz deste mandamento de luz que me outorgava a emancipação do erro e do medo?
Hoje me fiz espírita e através de Allan Kardec entendi melhor a vida. Sei que sou imortal e serei perfeito um dia. Compreendo melhor tudo aquilo que ensinaste, e que um dia serei uno contigo, como tu és com o Pai.
Ainda tenho nos olhos muitos escamas de ignorância que me impedem uma melhor visão do mundo. Contudo, hoje o amo, Rabi com todo o meu coração e sei que me amas. Não vendo nem compro indulgências, mas, ofereço um pouquinho de mim mesmo para o meu próximo.
Amílcar Del Chiara Filho Do livro: A barca do destino |